Nessa manhã afinal me deixaram sair. Quantos dias fiquei preso? Me mandaram para um campo ensolarado. O sol queimou meus olhos. Fiquei muito tempo sob luzes artificiais. Um suspiro de tristeza me escapou. Eu estava só. Não me incomodava. Eu já estivera sem as sombras antes. Só nunca por tanto tempo e sempre sabia que me voltariam.
A tristeza me sufocava. Me arrastei para um canto. Entendi o motivo de me acharem perigoso. As sombras me davam poder. Aquelas criaturas sem forma de cores inimagináveis que nenhuma pessoa supostamente 'sã' poderia ver no mundo. Elas me permitiam por outros a meus pés em menos tempo que um piscar de olhos. Mas os outros viam isso como se eu estivesse mesmo fazendo algo. Eu nunca havia notado aquele poder antes pois nunca precisei usá-lo.
Que tolo eu fui. A tristeza estava ali em minha informação. A saudade e o pesar me consumindo. Me enroscava em mim mesmo. Não havia ninguém para me consolar. Eu enfim estava totalmente só. E ainda assim. Apesar da dor profunda da separação eu entendia.
Na solidão da sala acolchoada eu entendi muitas coisas. Eu já sou o que tantos consideram louco. Eu não mudaria em nada de meu ver mas outros me considerariam ainda mais louco do que antes.
Eu tenho meu próprio mundo e o compartilho com tantos outros iguais a mim. Apesar de estarem calados eu ouvia as vozes de outros 'loucos'. A tristeza e a dos contidos em cada uma daquelas vozes. Vozes que pessoas 'sãs' não ouviriam. E vozes que as pessoas 'sãs' não possuem. Elas estão tão centradas em seus mundos que perderam essas vozes. Vozes que nossos ancestrais possuíam mas que hoje muitos não possuem mais.
Aqueles 'loucos' do manicômio que olham para o lado sem olhar não estão realmente loucos. Apenas tem um entender do mundo maior do que outros que não estão num estado tão avançado. Eles apenas se esquecem de mexer os lábios e fazer o som sair.
- "Fantástico não? Coisas tão impressionantes que normalmente não se vê por ai. E temos todos tanto receio de vir para cá. Eu poderia viver aqui para sempre."
Olhei para o velho homem que falava comigo. Ele não mexia os lábios para pronunciar as palavras. Os homens de branco o estranhavam aqui comigo. Enfim ele mexeu os lábios que, pelo que entendi, foi para não me assustar mais ainda. E também para tranquilizar os estranhos homens.
- É claro que não. Aqui nesse lugar não precisamos falar. As babas não vão incomodar a não ser que achem que precisam.
- Babas?
- "Os caras que você chama de homens estranhos de branco. É como os chamamos aqui. Babas. Porque estão sempre nos dizendo como agir, pensar, comer e falar. Ninguém merece." - Desta vez ele não falou. - "Será que da pra parar com isso? Eu posso ouvir seus pensamentos sabia? Assim como você pode ouvir os meus."
- Desculpe. - Por que continua sendo tão estranho não falar?
- Você vai se acostumar assim como todos aqui. "Qual é o seu nome?"
Não falo o meu nome. Nunca. Será que devo mentir?
"É possível mentir com os pensamentos. Mas você é muito inexperiente e por isso não conseguiria. Por que não fala o seu nome? E pelo que vi também não pensa nele."
Deixei meu nome para trás faz anos. Dez para ser mais exato.
"Isso é um pouco triste não acha? Viver sem um nome. Como as pessoas se referem a você?"
Normalmente só como o filho louco do vizinho. Ou quando estão falando diretamente comigo e tem que chamar a minha atenção só me chamam de anormal ou 'você ai'.
"Isso não é muito gentil... E como as sombras te chamavam?"
- Irmão. Mas elas foram embora. As sombras se foram. Elas não estão mais aqui. Por que? Argh! - Levantei-me de um salto.
As babas começaram a se dirigir a mim.
"Ei! Calma Licurgo. Não quer ser mandado a sala branca novamente não é? As babas tão vindo ai. Aja normalmente. Ou melhor. Aja como eles querem que você aja. Como um completo louco sem noção e meio afetado."
- Como é? Do que está falando?
"Fique calmo e cale a boca. Sente e faça cara de quem não sabe o que está acontecendo."
E posso saber o que esta acontecendo?
"Você surtou e se levantou de repente sem motivo, falando coisas sem sentido pois, supostamente, não está conversando com ninguém."
Epa. Foi sem querer.
"É. Epa mesmo. Agora trate de fazer o que eu mandei. Lembre-se. Eu só estou sentado do seu lado sem falar nada. Não tenho nada a ver com isso. E não trate de revelar sobre nossa conversa. Ninguém vai acreditar em você mas é melhor não arriscar. Eu vou negar tudo o que você disser. Dizem que eu sou o mais louco dentre todos os loucos deste manicômio. Não vou ter dificuldade apesar de que os unicos loucos estão fora destas paredes."
Por que me chamou de Licurgo?
"Achei que como vamos ser amigos você deveria ter um nome. Licurgo é algo bem semelhante a louco. Entendeu? Louco no caso seria só um apelido. Todos aqui vão querer saber seu nome e se você não tiver um... Bem, cada um aqui vai te apelidar de uma maneira e vai ser o caos pois ninguém vai entender nada. Principalmente eu."
"Aqui de agora em diante vai se chamar Louco. Licurgo, o Louco."
Tipo Dom Quixote de la mancha?
"Quase isso Louco. Quase isso."
Qual o seu nome?
"Casper. Casper Still."
Tipo o fantasminha camarada? Esse é mesmo o seu nome?
"Como se eu não tivesse escutado essa antes. É. É o meu nome. Não exatamente. Eu como você abandonei o meu nome a quinze anos atrás. Mas eu adotei outro que tinha mais a ver comigo. Casper agora é o meu nome. E quanto a Still... Eu também inventei o sobrenome. Vem de ainda louco. Ou quase. Haha."
Casper Still. Meu primeiro amigo no manicômio. Ou quase.
"Claro irmão."
Uma antiga tristeza me tomou. Me encolhi.
"Me desculpe. Não tive a intenção."
Eu sei. Eu é que estou muito sensível. Irmão... Nunca tive um irmão. Só uma irmã. Coisas de garota. - Me encolhi. - Haha.
"Licurgo Still. Gosto de como soa. O que acha? Pra mim seria uma honra."
Deve ser a isso que as sombras se referiam. A encontrar meu semelhante. Tremi. Lembrar delas causava dor. Por que me abandonaram?
"Elas não entram no manicômio. Tem medo dos homens de branco. Acho que é a isso que se referiam. Elas deixam a todos os que daqui se aproximam. Se quiser vê-las vá ao terraço mais alto. Não temos permissão de ir lá. Algumas vezes eu acho que eles as enxergam também. Mas nenhum deles sobe lá. Posso te levar mais tarde. O que acha?"
Obrigada.
"É para isso que servem os irmãos não é? Para cuidar uns dos outros. Ou pelo menos eu acho que é isso. Não observei os loucos lá de fora por tanto tempo como você."
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